- Agô,minha mãe", disse a avó, pedindo licença e permissçao.
- Agô Yá", respondeu a Yalorixá. "Olha aqui a Cidalinha".
- "Meu Deus, essa é Cidalinha? essa menina tem 7 anos mesmo"?
Depois de acriança pedir benção a Yalorixá, ela disse á menina:
- "Olhe, minha filha, o Oxalá que lhe viu na barriga de sua mãe queria assim. Seja bem vinda e venha para ficar."
A Yalorixá era Mãe Menininha. O ano, 1937. A menina ficou.
Mas a Ebomi Cidália, que hoje é conhecida como a Enciclopédia do Candomblé, como lhe chama o pesquisador Jaime Sodré, aos 7 anos já era inteligente. Forte, com o rosto largo, parecia que tinha uns 10 anos. "Aos 7 já havia dado a carta do ABC toda, a cartilha do povo e já estava no primeiro livro de Felisberto de Carvalho", lembra Ebomi, título concedido a quem já cumpriu suas obrigações no candomblé.
O que ela não sabia é que, quando ainda estava grávida, sua mãe, que não era do Axé, mas era muito amiga de menininha, foi se despedir porque passaria um tempo sem poder ir ao Gantois, por causa do parto que estava próximo. Foi por intermédio de uma senhora africana, uma "Tia", que estava incorporada com Oxalufã, naquele dia, que todos ficaram sabendo que aquela seria a filha de Iroko da "roça". O próprio orixá instruiu a mãe como proceder quando o bebê nascesse, e, depois de se batizar, foi apresentada a Iroko ( O Orixá é a árvore sagrada da religião) e ficou decidido que só voltaria lá quando completasse 7 anos.
Depois de 8 meses aprendendo sobre seu orixá, chegou o dia de apresentá-la. O povo-de-santo da Bahia se alvoraçou para ver a saída da filha de Iroko, com 7 anos e 8 meses. Até então, o orixá nem era cultuado dentro de um terreiro, já que era considerado da rua, do tempo, um ancestral. E, para completar, era originário da tradição jeje, e onde já se viu isso num terreiro de Keto, como é o Gantois? alguns consideraram uma afronta.
Mas Menininha achava que as qualidades do orixá deveriam estar dentro da casa. E, apesar dos muxoxos sobre como Iroko dançaria, quando a menina entrou ao som dos atabaques, as filhas-de-santo não se contiveram e jogavam suas contas, outras jogavam pano-da-costa, e nascia a primeira filha de Iroko da Bahia.
"Iroko, para mim, é meu Deus. Abaixo de Deus, que é onipotente, ele é meu Deus, que minha mãe consagrou na minha cabeça e no meu corpo. São 72 anos sendo dele" Diz Cidáia.
Assim como Iroko, que é saudado como a palavra "Erô", que significa: "Eu trago a paz, a calma, e a segurança", as mesmas qualidades emanam da Ebomi. Depois de ter criado seus filhos, ela sempre esteve próxima a menininha, assessorando-a, e agradece a Deus por ter estado ao lado dela no dia de sua passagem em 13 de agosto de 1986, ás vésperas de Cidália fazer 50 anos de Iniciada.
"Ela não me deu apenas uma lição de vida, mas sim duas. Uma foi sobre candomblé, como me conduzir na roça e com os terreiros de candomblé como um todo. Todos me recebem e em todos tenho onde sentar. Candomblé não é só vestir anágua dura e estar dançando. Tem que ter a cultura, a sabedoria a hierarquia. O pessoal acha hierarquia um bicho-papão, mas é respeito aos costumes e ás pessoas". ensina ela.
A outra lição foi como se conduzir na própria vida. há muito tempo sem marido, ela criou dos filhos sozinha: "Sempre, graças a Deus fui eu mesma". E teve sua profissão: por 25 anos foi cozinheira-chefe de um hotel. "Há quem diga que nunca comeu um sarapatel como eu faço".
Sua comida preferida, por sinal, "Ainda é o feijão, tem uma coisa que atrai, chegar em casa á noite e sentir aquele cheiro. Mas estou fazendo regime", afirma ela, que fez uma cirugia há 5 anos nos joelhos por causa de uma artrose. Depois do feijão, ela prefere os peixes.
Apesar de ser uma fortaleza, ela revela que tem medo do rumo que a violência tomou em salvador. Para tudo o mais, essa senhora frondosa e sábia, que parece saber do tempo e da eternidade, recomenda: "O que pode dar paz, calma e segurança é ter Fé, com ela você não acredita em feitiço, pois a Fé é a base, é o alicerce".
Bom Resolvi postar essa entrevista feita com a Ebomi Cidália, pois apesar de não conhecer ela pessoalmente...tenho um enorme carinho e adimiração, por essa guerreira, conhecedora do sagrado, e pela energia que enebria em vários relatos e videos vistos por mim, essa entrevista me emocionou muito, ontem 27.06 quando a li pela manhã umas 9h aprox. , fiquei muito emocionada, e lembrei da minha vó, que era uma Yalorixá que trazia o conhecimento já descrito no seu semblante, um dos meus sonhos seria conhece-la pessoalmente, e ter a honrra de bater meu Ori aos Pés de uma filha de Iroko.... Erô Iroko !!!
Prox. posto posto algo sobre Iroko.